• Categorias
  • Um freezer estragado e o bonde dos apegados.

    Sou muito apegada a maioria dos bens materiais  que tenho aqui em casa. Sabe, não me considero a louca dos objetos de decoração, daquelas que paga uma fortuna em almofadas peludas e cadeiras de acrílico. Confesso que às vezes dou uma enlouquecida de leve no site da Tok & Stock, mas é tudo muito saudável, até porque meu salário de bolsista universitária não pagaria nem um kit de copos da loja. A questão é que a maioria das coisas que temos aqui em casa é meio antiga, da época em que meus pais se casaram (o que já faz mais de vinte anos), então talvez eu tenha criado um laço sentimental com alguns desses objetos. 

    Os eletrodomésticos da nossa cozinha, mais precisamente armário, freezer e geladeira, são todos beges. Recado para adolescentes que estão lendo esse texto: sim, as empresas fabricavam produtos nessa cor e é como se ela fosse o branco da atualidade. Mas agora vamos falar sobre o freezer, que é o protagonista dessa história que eu quero contar. Esse refrigerador já guardou de tudo: carnes das compras do mês, pão de queijo, sobremesa de natal e vários cortes de porco que meu tio sempre trazia quando vinha da fazenda para nos visitar. Ele também já gelou várias cervejinhas (sou imensamente grata por esse serviço) e sempre nos pareceu indispensável. 

    Esses dias cheguei em casa e um barulho estranho vinha da cozinha. Imaginei que meu amigo não estava bem, então puxei o fio da tomada. Quando minha mãe chegou do trabalho decidiu que não iríamos consertar o freezer e eu, apegada que sou, já fiquei meio sem rumo. No fundo eu acreditava que nós não aguentaríamos nem uma semana sem ele e assim minha mãe acabaria mudando de ideia. Mas a verdade é que nós conseguimos nos virar muito bem. É fato que só se passaram umas duas semanas, mas o freezer não fez falta até agora e nem acho que vá fazer. 

    Engraçado isso né?! Às vezes a gente se apega demais a algo como se a nossa vida fosse parar de funcionar sem aquilo. Mas posso te contar um segredo? A vida não para. Nunca. E muitas vezes ela faz com que percamos algumas coisas assim, de surpresa, só para percebermos que elas não eram tão indispensáveis quanto imaginávamos. Só para entendermos que estar apegado a certa coisa não significa necessariamente que precisamos daquilo. Até porque é comum que a gente se confunda e ache que precisa muito de algo quando na verdade só estamos acostumados e sem coragem para abandonar aquilo. 

    Acho que tem faltado uma boa dose de coragem a todos nós que fazemos parte desse bonde dos apegados. Imagina quanta novidade nós deixamos de conhecer porque lotamos nossa vida com esse monte de coisas que acreditamos precisar? Pode não existir nada de excepcional dentro dessas novas possibilidades, mas eu acho que vale a pena pagar para ver e também acredito muito no poder das mudanças. E pode até ser uma ideia meio clichê, mas é fato que há ocasiões em que a gente sofre por uma perda sem saber que a vida tem algo muito melhor reservado. No meu caso, a grana que seria usada para consertar o freezer vai direto para as economias da máquina de lavar e a felicidade proporcionada pela lavadora automática é tão grande que já nem me lembro mais porque eu gostava tanto daquele freezer bege.

    Você Tem Cheiro de Flor



    Você é aquela flor que a gente encontra numa tarde ensolarada, escondidinha no meio do mato e arranca só para poder sentir o cheiro mais de perto. Aquela flor que é tão, mas tão bonita que a gente não consegue parar de olhar e sorrir como se tivesse encontrado a coisa mais legal desse mundo. Aquela flor que a gente coloca atrás da orelha para ver se consegue ficar um pouco mais bonita também, e torce para ela não morrer logo porque quer ficar junto o máximo que puder.

    Você tem cara de brisa passageira, mas por dentro o jeito é todinho de quem veio para ficar. Jeito de quem vai deixar fios de cabelo presos nos lençóis e escova de dente na pia do banheiro. De quem vai aparecer para almoçar, dizer que vai dormir e aí pedir uma camiseta velha emprestada porque esqueceu o pijama em casa. Eu te emprestarei a camiseta com a maior boa vontade, torcendo para o seu cheiro grudar nela, igual o cheirinho da flor.

    Se no lugar de ser flor você fosse uma parte do dia, seria a primeira manhã de sono tranquilo que a gente tem depois que começam as férias. Aquela manhã em que a gente se permite acordar só quando a luz do sol incomoda os olhos, sem nem se preocupar com o relógio. Aí dá um espreguiço gostoso, afasta as cobertas e abre os olhos enquanto sorri porque sabe que não tem nada para fazer. Você seria aquele dia de folga no meio da semana.

    Um dia desses me mandaram descrever meu dia ideal e eu disse que nele eu almoçaria o meu prato preferido, leria algum romance água com açúcar e aí, no fim da tarde começaria a chover porque tudo só ficaria perfeito se começasse a fazer aquele friozinho gostoso. Você é aquele dia frio que chega para deixar a vida perfeita quando eu nem sabia que ela podia melhorar. Não é que o mundo não seja bom sabe, mas é que quando você fica o mundo fica bem melhor.

    Você é aquela música boa que faz com que a gente deixe os compromissos de lado porque nada parece tão importante quanto te escutar. É aquele docinho de festa que faz valer a pena sair da dieta, mesmo que precise correr atrás do prejuízo depois. Eu queria que todas as pessoas do mundo tivessem a chance de gostar de você, que todas elas pudessem te conhecer. Nesse dia você não teria mais o cheirinho de flor, e sim a flor que teria cheirinho de você.


    Cê tem cheiro de flor, cê tem cheiro de meu amor
    Cê tem jeito de quem vai ficar, quero a vida pelo teu olhar
    [...]
    Cê tem jeito de flor, cê tem jeito de meu amor
    Cê tem cheiro das minhas manhãs, limpa o peito das culpas tão vãs
    Cheiro de Flor – Ana Muller

    Eu decidi falar sobre você.




    Dia desses, em uma aula de literatura, li a história de uma moça que possuía um tear mágico. Ela tecia os dias, as noites... Teceu um peixe quando sentiu fome e um marido quando se sentiu sozinha. Era o bater dos pentes do tear que transformava seus desejos em realidade. A moça tecelã me fez lembrar de você. Me fez lembrar também de todas as vezes em que eu deixei a tela em branco porque sabia que qualquer coisa que eu escrevesse seria sobre você. De todas as folhas com meios parágrafos que eu amassava e jogava debaixo da cama só para não cair na tentação de continuar escrevendo. Porque quando nós gostamos muito de uma pessoa o amor insiste em sair pelos poros, escapar pela boca e derramar pelos dedos enquanto a gente digita ou escreve.

    Eu olhava a tela do computador e dava medo pensar que o bater dos botões do teclado poderia transformar o meu amor por você em realidade tal qual fez o tear com o homem que a tecelã idealizou. Eu fugia da possibilidade te amar do mesmo jeito que fujo para o meu quarto naqueles dias em que não quero encontrar ninguém e os parentes vêm me visitar. Eu te evitava da mesma maneira como evito cumprimentar pessoas conhecidas naqueles dias em que estou de mau humor. Fugir de você é um eterno encarar fixo a tela do celular para não ser obrigada a cruzar olhares com ninguém.

    Talvez, lá no início, eu devesse ter me libertado um pouco e deixado o que eu sinto ser algo real. Liberar esse sentimento para ser o que ele quisesse, sem se prender aos botões do teclado ou aos pentes de um tear imaginário. Eu poderia ter dito que odiava seu corte de cabelo e aquela sua calça jeans desbotada, mas que de você eu continuava gostando. Eu poderia ter dito que adorava quando eu estava com o cabelo preso e aquela blusa velha que só visto quando todas as minhas outras roupas estão sujas e mesmo assim você me chamava de linda. Não parecia correto, mas talvez as suas palavras fossem o tear que faziam a minha beleza se tornar realidade.

    Aprisionei as palavras sobre você durante tanto tempo que quando decidi soltá-las, elas não quiseram partir. Se agarraram ao chão, abraçaram as paredes, fizeram de tudo para não serem expulsas. Foi mais ou menos da mesma maneira que acontece quando vou a parques de diversão com montanhas-russas. Eu sinto tanto medo ao pensar nas mil e uma formas como aquilo pode dar errado que no fim acabo nem entrando no carrinho. Os brinquedos radicais estarão sempre ali, esperando a minha coragem chegar, mas a chance dessa nossa história se tornar algo real já passou, tão rápido quanto uma descida de montanha russa. E nem adianta querer correr atrás.

    Talvez essa nossa (quase) história só me fascine por ser como aqueles filmes que no final deixam no ar um mistério que nunca é resolvido. Talvez ela seja como o último episódio daquela série que nós amamos. Aquele final que é comentado até hoje porque a maioria das pessoas não gostou, porque tudo foi diferente daquilo que o público esperava. Todos odiaram, mas nós dois amamos e acho que essa é uma das poucas coisas que temos em comum. O que eu sei é que agora não preciso mais ter medo do bater dos pentes do meu tear ou do toque nos botões do teclado, porque mesmo que eu escreva dezenas de textos sobre você, nós nunca seremos realidade. E assim como o marido da tecelã e todas as suas riquezas, a única coisa que resta ao meu sentimento é se desfazer.


     
    Copyright © Blog da Vanessa | Todos os direitos reservados | Desenvolvimento por VR DESIGN :: VOLTE AO TOPO