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  • De Hoje Não Passa



    Olá, meu nome é Ricardo, e eu prometi para mim mesmo que de hoje não passa. Sei que ela é a garota mais linda e mais popular de todo o colégio, e que pelo menos metade do time de futebol já convidou a Ana para sair, mas não me importo. Ela é a garota com a qual eu venho sonhando nos últimos dois anos, estou muito apaixonado, naquele nível em que a gente nem sente mais vergonha de contar para os amigos, na verdade, se ela me pedisse, eu gritaria para o mundo todo que a amo. Mas acho meio difícil ela me pedir qualquer coisa, nem sei se ela sabe que eu existo.

    Eu não sou totalmente frouxo, já tentei demonstrar o que eu sinto outras vezes, juro que tentei, mas não deu muito certo. Houve aquela vez no aniversário da minha melhor amiga Melissa quando tentei me apresentar, mas a Ana me ignorou, segundo meu amigo Gabriel ela apenas não escutou o que eu disse, mas eu tenho certeza de que ela ouviu. É claro que o som estava alto, e eu tenho essa mania de conversar cada vez mais baixo quando estou nervoso, mas tenho certeza de que ela preferiu fingir que não escutou, e eu não a culpo, se estivesse no lugar da Ana não ia querer sair com um cara como eu. Não tenho um carro, minha inteligência está totalmente na média (talvez até um pouco abaixo) e o salário que eu ganho trabalhando na loja com meu pai só daria para pagar umas duas casquinhas. Enfim, independente de qualquer coisa, de hoje não passa.

    Fiz todos os cálculos, não tem como dar errado. Todas as terças o time de futebol treina junto com as líderes de torcida no campo, bem na hora do almoço, a Ana está com um dos pés imobilizados e por isso vai ficar um tempo sem participar dos treinos, ou seja, nas últimas terças ela está almoçando sozinha, o que me dá exatamente uma hora para tentar uma investida. Já está tudo planejado, eu vou me servir como de costume, passar na frente de sua mesa, cumprimentá-la como se o nosso encontro não tivesse sido planejado e dizer algo mais ou menos assim “Você já deve ter percebido isso, eu meio que estou a fim de você e estive pensando se você não quer ir ao baile de inverno comigo?”, talvez eu devesse falar algo mais elaborado, mas é melhor não exigir muito da minha timidez.

    ***

    Deu tudo errado, talvez tenha sido culpa minha, mas prefiro acreditar que tudo estava destinado a dar errado desde o começo. A princípio o plano fluiu bem, assisti todas as minhas aulas e na hora do almoço segui para o refeitório com o Gabriel. Lá estava a Ana, linda como sempre sentada sozinha numa mesa perto da janela enquanto comia sua salada de folhas e frango grelhado, deve ser por isso que ela tem um corpo tão escultural. Me servi com carne, arroz e aquela massa meio cinzenta que eles chamam de feijão lá na cantina, peguei minha bandeja e fui andando na direção da mesa da Ana, mas chegando lá eu simplesmente travei, minhas mãos suaram, as pernas tremiam e eu não consegui pronunciar uma palavra. Para piorar a situação, Ana percebeu que eu estava lá e começou a me olhar com uma aparência um pouco assustada. Suei frio e saí de perto da mesa o mais rápido que consegui, me sentei com Gabriel e Melissa que apenas riram da minha total falta de atitude. Prefiro acreditar que foi melhor assim, é óbvio que ela não ia aceitar, eu só me poupei de ouvir um alto e ríspido não na frente de todo o colégio. Melhor ir ao baile com Gabriel e Melissa, como fizemos nos últimos anos. Na verdade não sei se realmente é melhor, mas com certeza é mais seguro.

    ***

    Em seu quarto, Ana estava deitada na cama pintando as unhas enquanto conversava com uma amiga ao telefone.

    __ Sei que gosto dele há muito tempo, mas de hoje não passa, vou esquecê-lo nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.

    __ Mas você não tinha certeza de que ele ia convidá-la para o baile?

    __ Eu tinha, mas deu tudo errado. Hoje ele ficou parado na frente da minha mesa uns dois minutos, meu coração disparou e eu só conseguia olhar fixo para ele. Mas no fim acabou que o Ricardo saiu sem dizer uma palavra.

    __ Talvez seja melhor assim.

    __ Não consigo entender porque o Ricardo me ignorou todos esses anos, nem aquela vez em que fui ao aniversário da Melissa só para encontrá-lo ele falou comigo. Prefiro acreditar que desde o começo a nossa história estava destinada a dar errado, assim eu sofro menos.

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