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  • Quem é Anita?



    “Sabe como é se sentir completamente deslocada em um lugar? Perceber que os ideais de todos os outros não fazem sentido para você. Os costumes, os lugares, as conversas, nada se encaixa. Ou melhor, eu não me encaixo. E não é apenas uma questão de cidade ou país. Pode parecer loucura e realmente me considero um pouco louca por pensar assim, mas é que ás vezes sinto como se o meu corpo e a minha alma não pertencessem à esse mundo. E todos os mistérios que meus pais adotivos insistem em manter ao redor da minha chegada à essa casa só aumentam essa sensação.”
                    
    Anita fechou seu diário e permaneceu um tempo com o olhar vago fixado na parede, segurando o pingente que tinha pendurado no pescoço. Era seu único pertence quando foi encontrada por seus pais. A joia parecia algum tipo de medalhão antigo, com folhagens e um monograma com as letras R e K incrustados.
                    
    O calendário marcava o dia dezessete de dezembro, era seu aniversário de vinte e um anos e algo dentro dela lhe dizia que alguma coisa muito importante aconteceria naquela data. Não sabia se era algo bom ou ruim, mas tinha a certeza de que se tratava de algo grandioso.
                    
    Ao sair do quarto, Anita surpreendeu seus pais sentados à mesa tomando café preto e conversando sobre algum assunto que foi subitamente interrompido quando perceberam sua presença.
                    
    __ Bom dia querida. Feliz aniversário.
                    
    __ Bom dia pai. Nem precisava me dar os parabéns, sabe que eu odeio aniversários. Eles são apenas uma triste constatação da aproximação da morte.
                    
    __ Acontece que hoje não é apenas mais um aniversário. Hoje é o dia mais importante da sua vida.
                    
    __ Que seja.
                    
    __Sei que logo você vai sair, então precisamos ser rápidos.__ seu disse enquanto pegava uma mochila debaixo da mesa.__ aqui dentro tem uma lanterna, água, mantimentos e curativos. Leve isto com você quando se for, e não me faça perguntas, pois não posso respondê-las.
                    
    __ É melhor você ir agora, não quero que se atrase.__ sua mãe disse enquanto acariciava seu rosto__ nunca tema seu destino Anita, ele faz parte de você.
                    
    Anita se despediu e saiu de casa com o coração a mil. Não sabia para onde ir ou o porquê daquele dia ser tão importante. A mochila pesava, os lábios estavam secos, a respiração ofegante, e uma sensação desconfortável começou a inundar seu colo.  A sensação foi ficando cada vez maior e mais forte, cada vez mais agoniante, era como se seu medalhão estivesse queimando sua pele e se afundando destro de seu corpo. Tentou arrancá-lo, mas os dois já estavam unidos, como se fizessem parte um do outro.
                    
    Nesse momento o céu escureceu e Anita foi sentindo a lucidez escapar de seu corpo pouco a pouco, até que caiu desacordada.
    ***
                    
    Ao despertar, ela foi abrindo os olhos vagarosamente, a claridade ainda incomodava, observou a paisagem ao seu redor e não pôde reconhecer nada que lhe fosse familiar. As árvores amareladas pelo outono, as calçadas irregulares, a entrada de sua casa, nada mais estava ali. Tudo havia sido substituído por uma paisagem completamente devastada. Ruínas de construções muito antigas ao longe, várias pedras, rios, e a vegetação era vasta e densa. Não percebeu nenhum sinal de vida por perto. Teve medo.
                    
    Então Anita se sentou e ao seu lado encontrou uma velha placa de bronze, pegou uma das ataduras que tinha na mochila e limpou a placa até que fosse possível ler seus dizeres, “Reino de Kira”, a garota ficou atônita. “Reino de Kira”, repetiu para si mesma, eram as iniciais de seu medalhão, porém ela não sabia como interpretar aquelas informações. Ela se levantou e por algum tempo fitou o horizonte, o sol se despedia tímido e uma infinidade de dúvidas inundou sua mente. “Será que eu sou Kira?”, “Será que este é o meu reino?”.
                    
    As respostas para estas perguntas apenas o tempo lhe traria, mas enquanto estava em pé, e suas mãos tocavam a superfície áspera daquelas pedras, pela primeira vez Anita se sentiu em casa e, de maneira sobrenatural, se sentiu imensamente feliz.
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