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    Desde pequena Maria era fascinada pelo amor. Aos seis anos ela já suspirava assistindo as cenas românticas de A Bela e a Fera (seu conto de fadas favorito) e adorava simular casamentos de grande porte entre a Barbie e o Ken. O vestido era um Vera Wang, os sapatos Christian Louboutin e a lua de mel seria em Veneza ou Paris, eles ainda não tinham se decidido. Não eram raras as vezes em que ela ganhava broncas da mãe por arrancar as flores dos vasos espalhados pela casa para enfeitar a “igreja”.

    Maria foi crescendo e lá pelos doze anos começou a se interessar mais pelas suas próprias histórias de amor, queria mais realidade e menos ficção. Aos treze se apaixonou por Guy, um garoto do colégio. Loiro, alto, belo corpo, uns três anos mais velho e com um cheiro bom que a fazia arrepiar. Maria não sabia ao certo o que significava tudo aquilo, os arrepios, as borboletas no estômago e as mãos sempre muito geladas. Mas ela sabia que gostava daquele garoto, que queria ser sua namorada, e talvez até beijá-lo na boca.

    Alguns meses depois, Guy começou a namorar a garota mais popular do colégio. Eles andavam de mãos dadas o tempo todo e faziam o tipo “casal comercial de margarina”, bem clichê. Para Maria aquilo foi o fim do mundo. A primeira decepção amorosa, lágrimas, a primeira vez que seu coração fora partido, um pouco mais de lágrimas e no fim o juramento de que nunca mais amaria novamente. Não é novidade que o juramento não durou muito tempo, mas Maria prometeu para si mesma que, quando tivesse um namorado, eles não seriam o típico casal clichê. Nada de comercial de margarina!

    Agora sua única preocupação era saber quando viveria a sua tão sonhada história de amor.

    __ Papai, quando eu poderei namorar?

    __ Não sei querida, pergunte à sua mãe.__ ele respondeu sem tirar os olhos do jornal.

    __ Mamãe, quando eu poderei namorar?

    __ Não sei princesa, ainda não pensei sobre isso.__ ela respondeu sem tirar os olhos da TV.

    __ Isso é muito sério mamãe, preciso de uma resposta.

    __ Hum, acho que aos quinze está bom. Agora me deixe ver a novela.

    Maria correu até seu quarto, pegou um calendário e fez as contas. Faltava um ano, sete meses e cinco dias para que ela pudesse namorar pela primeira vez.

    Acontece que o tempo foi passando e Maria só conseguiu o tão aguardado namorado lá pelos dezesseis. A ideia de ser um casal não clichê atrapalhava um pouquinho às vezes, mas não era um grande obstáculo. Ele convidava para ir ao cinema, mas ela preferia jogar videogame. Ele queria dar presente no dia dos namorados, mas ela preferia esperar até o mês seguinte. Com algumas idas e vindas o namoro durou vários anos.

    No dia quatro de julho, aniversário de cinco anos de namoro do casal, a campainha tocou na casa de Maria, ela correu para abrir a porta e se assustou com a cena que encontrou. Do lado de fora estava seu namorado, joelhos no chão, buquê de rosas vermelhas em uma mão e caixinha azul da tiffany’s em outra.

    __ Você aceita se casar comigo?

    __ Sim meu amor, eu aceito!

    Enquanto lágrimas escorriam pelos olhos de ambos e o casal se beijava apaixonadamente, Maria não pôde deixar de pensar o quanto aquela cena era clichê, mas pela primeira vez não se importou, afinal, o amor é assim mesmo. Ele é incerto, um pouco controverso e quase sempre surpreendente. É um sentimento grande, e não adianta tentar colocá-lo em uma lista de regras porque ele não vai caber lá. O amor é brega e um tanto cafona, mas ninguém se importa, porque no fundo nós gostamos e sentimos muito prazer em viver todo esse clichê.
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