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  • O Tal "H" Maiúsculo


    Bernardo começou seu dia seguindo a mesma rotina de sempre. Levantou-se, escovou os dentes, fez a barba, desceu para a cozinha, preparou sua dose individual de cappuccino e comeu algumas rosquinhas enquanto folheava o jornal. A rotina era a mesma de todos os outros dias, mas naquela manhã havia algo diferente, uma certa inquietação, e isso não tinha nada a ver com a manchete de um assassinato na primeira página do jornal, na verdade, a perturbação se devia a uma conversa que Bernardo teve com um amigo durante um jantar na noite anterior.

    __ Cara, eu adoro esse restaurante, o tempero daqui é simplesmente divino.

    __ Bernardo, você devia evitar esses adjetivos. “Divino”, isso parece coisa de veado, macho que é macho não fica comentando tempero.

    __ Bem, me desculpe, eu acho... Enfim, vamos pedir logo. Garçom!

    __ Boa noite senhores, podem fazer seus pedidos.

    __ Eu vou querer risoto de camarão, com salada de rúcula e tomates secos.

    __ E para beber?

    __ Algum vinho tinto e suave, escolha por mim, por favor.

    __ E o senhor?

    __ Eu vou querer um bife a parmegiana tamanho família, fritas e molho de churrasco. Para beber, uma cerveja bem gelada meu chapa.

    O garçom foi se afastando enquanto terminava de escrever os pedidos em seu bloco de anotações.

    __ Eu não acredito que você fez isso. Vinho? Tomates secos? Sinceramente, se você for continuar dando pinta, nós nem vamos sair juntos.

    Bernardo ficou parado, sem reação, tentando assimilar o que acabara de acontecer. Um de seus melhores amigos insinuou que ele era gay, dá pra acreditar? Tudo bem que ás vezes ele tinha umas atitudes um pouco diferentes, como organizar os livros na estante por ordem alfabética e aquela mania de adivinhar os ingredientes das sobremesas em restaurantes famosos, mas isso era normal, não?

    E Bernardo sempre se considerou um cara bem hetero, macho de verdade. Ele adorava assistir futebol aos domingos, até falava alguns palavrões durante lances perigosos, e sabia o que era um impedimento. Também não podemos esquecer o fato de que Bernardo sempre adorou as mulheres, ele dizia “Elas são lindas, tem um cheiro ótimo, pele suave e o sexo com elas é sempre maravilhoso”. Até onde ele sabia, para ser gay era preciso fazer sexo com outros homens, e isso, “Argh!”, ele não conseguia nem imaginar.

    __ De qualquer forma, preciso descobrir onde está o erro e repará-lo. Tenho que me tornar um homem com “H” maiúsculo.

    Então ele olhou ao seu redor, observou seus pertences, pensou em seus costumes, suas manias, enquanto ia tentando criar maneiras para parecer um pouco mais macho.

    __ Vamos começar por esse café da manhã. Cappuccino com rosquinhas não parece ser a combinação de um homem, a partir de amanhã eu só comerei pão com mortadela acompanhado por uma xícara de café preto. Ah, e esse jornal eu vou trocar por uma revista playboy.

    Ele notou suas coisas que estavam sobre a mesa e reparou que carregava todo o seu material de trabalho em uma Louis Vuitton masculina.

    __ Meu Deus, não deve existir nada mais gay que um homem carregando uma Louis Vuitton! Preciso ir ao shopping, talvez uma Armani me torne um pouco mais macho.

    Bernardo saiu da cozinha e foi até seu quarto, procurava outros fatos que pudessem prejudicar de alguma forma a sua imagem. Abriu o guarda roupa, as camisas estavam muito bem passadas, organizadas por cores formando um degrade perfeito. Correu os olhos pelas paredes e parou em sua estante, onde os livros estavam organizados em ordem alfabética de acordo com as iniciais dos autores. Então Bernardo parou em um breve momento de reflexão.

    __ Bom, acho que meu índice de masculinidade para por aqui, odeio desorganização.

    E Bernardo continuou com sua ideia de parecer um pouco mais másculo, deixava a toalha molhada em cima da cama, o sapato largado no meio da sala e arriscava bebericar um pouco de cerveja bem gelada quando saía com os amigos, mesmo odiando aquele amargo que surge nos primeiros goles. Ele continuava atento à organização de seus livros e camisas, e quase sempre não resistia ao seu tradicional cappuccino pela manhã. Bernardo mudou em alguns aspectos, mas ainda restava algo daquele cara de antes, um pouco menos metódico, mas com o mesmo bom gosto para marcas e comida, e ele não se tornou “mais” ou “menos” hetero por causa disso.
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    2 ♥

    1. Olá moça muito boa a narrativa, acho que essas atitudes não fazem dele menos homem, nos dias de hoje é até normal, mas ainda existe muita gente com preconceitos. Eu me considero meio rústico, mas sem o preconceitos quanto a isso.

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      1. Com certeza, o preconceito por parte de algumas pessoas ainda é bem grande, qualquer atitude fora do padrão "rústico e grosseirão" já faz com que o homem seja considerado menos másculo...

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