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  • Quem Espera Sentado Nunca Alcança


    Às vezes parece que não me encaixo em certos lugares. Minha mãe diz que é mania, meus amigos dizem que é frescura, mas eu sei que essas sensações não se parecem nem um pouco com caprichos ou algo do tipo. Estou em um lugar, ora sozinho, ora acompanhado, e de repente me vem aquele desconforto e uma vontade enorme de sair correndo para me abrigar em um local seguro. O pior é que esses lugares não tem nenhuma ligação entre si. São elevadores, adegas, a sala do chefe, e o pior de todos: recepção de clínica odontológica. Talvez isso se deva ao fato de, durante minha infância, eu ter sufocado durante uma consulta, mas isso não vem ao caso. O fato é: Meu Deus, como eu odeio aquele lugar! Pessoas completamente diferentes confinadas em um ambiente minúsculo, o telefone tocando de cinco em cinco minutos e tudo embalado pelo terrível som do famoso “motorzinho”.

    Toda essa repulsa fez com que eu adiasse uma consulta durante alguns anos, uma solução temporária que a longo prazo resultou numa dor de dente infernal, cinco cáries, dois canais e um aparelho para correção. Conclusão: consultas semanais durante certo tempo e manutenção mensal do aparelho. Era tudo o que eu não desejava, ficar presa naquela maldita recepção duas vezes por semana. Tinha certeza que aquele tratamento seria uma das piores coisas que já me aconteceu, até que uma coisa muito boa e inesperada aconteceu no dia da primeira consulta.

    Cheguei ao consultório e entrando na recepção corri os olhos pelas cadeiras, encontrei apenas um lugar vago, uma única cadeira desocupada entre a parede e outra cadeira ocupada por uma mulher incrivelmente bonita. Ela tinha cabelos castanhos e cacheados que desciam até a cintura, seus seios fartos preenchiam todo o decote e as cochas grossas chamavam a atenção mesmo estando cobertas com jeans. Seu perfume também era ótimo, pude perceber isso quando finalmente saí do meu transe e me sentei ao seu lado. Até pensei em iniciar uma conversa, mas ela estava tão concentrada em sua revista feminina que eu preferi não atrapalhar.

    Aquela mulher realmente mexeu comigo, eu passava a semana inteira pensando naquela desconhecida, lembrando o aroma forte de seu perfume, e o mais impressionante, torcendo para que chegasse logo o dia da minha próxima consulta só para talvez ter a sorte de vê-la novamente. A encontrei várias vezes em outras semanas, eu sempre dava um jeito de me sentar ao seu lado, mas nunca falava nada. Ela lia de maneira tão compenetrada e eu não tinha coragem suficiente para interrompê-la. Se ela parasse de ler, nem que fosse apenas por alguns segundos, eu tentaria uma conversa. Mesmo me arriscando a parecer um tanto ridículo, eu tentaria. Se ela parasse... Acontece que ela acabou parando de ir ao consultório sem nunca ter parado de ler. E eu acabei sendo um tanto ridículo, com ou sem conversa, e perdi a única oportunidade de conhecê-la de verdade. É como li uma vez em algum lugar, “Se você não perguntar, a resposta será sempre não”, e a resposta para a minha covardia foi um grande “não”.

    ***

    Não acredito que fiquei empolgada com essa consulta de novo, eu devia ter escutado quando a Lu tentou me aconselhar, “Carol, não faz sentido você se arrumar toda para ir à sua consulta no dentista. Eu sei, você já me disse várias vezes que o cara da recepção é um gato, mas pensa comigo, vocês se sentam lado a lado todos os dias e ele nunca te disse um palavra, nem te deu um sorriso amigável, nada. Pare de fantasiar, você não é uma adolescente.”, mas não, preferi fechar os olhos, ou melhor, tapar os ouvidos, e não escutar as sábias palavras de minha amiga. Fiquei lá na recepção, lendo aquelas revistas idiotas sem parar porque morria de vergonha só de pensar em manter algum contato visual com ele. Se ele falasse comigo, nem que fosse apenas por alguns segundos, eu pararia de ler imediatamente e agarraria a oportunidade com unhas e dentes. Se ele falasse... O tempo passou e eu literalmente esperando sentada, acabei terminando meu tratamento antes de ele tomar a iniciativa, e perdi a única oportunidade de conhecê-lo de verdade.
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