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    Cintia sempre foi uma garota de poucos amigos, muito reservada. Durante a infância, dificilmente a viam na rua brincando com as outras crianças, seu ideal de diversão era passar as tardes em frente à televisão assistindo seus programas favoritos. Vez ou outra ela começava a rodopiar pela sala fingindo ser uma cantora famosa ou uma atriz superbadalada , a mãe não brigava nem repreendia, achava bonito ver a filha fantasiando ser uma artista. O problema é que o tempo foi passando, e lá pelos dezesseis anos de Cintia, sua família, seus amigos e seu namorado, começaram a reparar que a paixão pelo que está do outro lado da tela não era mais brincadeira de criança.
                   
    O amor platônico da vez era Leo Bernardes, a voz do momento, o garoto que há semanas reinava absoluto nas paradas de sucesso. O quarto de Cintia podia facilmente ser confundido com um pequeno museu em homenagem ao cantor. A roupa de cama tinha seu rosto estampado, pôsteres e fotos enchiam as paredes, e suas músicas tocavam repetidamente no rádio. No começo Júnior, o namorado de Cintia, estranhou ter que “dividir” sua namorada com outro homem, mas apesar de tudo ele sabia que Leo era apenas um artista que eles nunca conheceriam pessoalmente, e como o amor nos faz aceitar coisas que até Deus duvida, o namoro seguiu firme e forte.
                   
    Entretanto, numa tarde de quinta-feira, surgiu o fato que transformou a calmaria que pairava na vida de Cintia em uma tempestade furiosa.
                   
    Cintia estava navegando na internet quando leu a notícia que quase fez seu coração parar: no domingo Leo faria uma aparição relâmpago em sua cidade, e as cinquenta primeiras garotas que fossem até a porta da rádio local teriam direito a um pequeno encontro com o cantor. Aquele garoto era realmente muito amado por suas fãs, e Cintia sabia que se quisesse uma daquelas vagas teria que acampar na fila, literalmente.
                   
    Após passar quase meia hora gritando e surtando em frente ao computador, a garota desceu as escadas para dar a feliz notícia a Júnior e a seus pais.
                   
    — Você deve estar brincando não é mesmo? — a mãe de Cintia foi a primeira a falar, e ao perceber o olhar de reprovação estampado no rosto de todos, ela percebeu que algo estava errado.
                   
    — Claro que não! Esse é o sonho da minha vida, será que alguém aqui pode ao menos tentar ficar feliz por mim?
                   
    — Sábado é nosso aniversário de namoro, nós combinamos de jantar naquele japonês que você adora lembra?
                   
    — E no domingo tem aquele almoço importante com o meu chefe filha, — disse o pai de Cintia desapontado. — e eu disse que precisaria da presença de todos vocês. Te avisei há semanas...
                   
    — Eu sei de tudo isso, — disse Cintia nervosa. — mas eu simplesmente não posso perder essa oportunidade.
                   
    — Pra mim chega! — disse Júnior elevando um pouco o tom de sua voz, coisa que ele raramente fazia. — Você terá que escolher, é o Leo ou eu.

    Cintia parou por um instante, pensativa, refletindo sobre o que acabara de ouvir, e olhando bem no fundo dos olhos de seu amado ela se pronunciou.

    — Desculpe, mas eu não vou jogar essa chance fora.

    Instantaneamente os olhos de Júnior ficaram marejados e ele saiu batendo a porta. No dia seguinte, sob os olhares de reprovação dos pais, Cintia arrumou uma mochila com comida, camisetas e alguns objetos de higiene pessoal, e seguiu para a porta da rádio onde espantosamente cinco garotas já tinham dado início a fila.

    Só é uma pensa dizer que a tão sonhada tarde de domingo foi um banho de água fria nas expectativas de todos os fãs. No tal encontro “particular”, as garotas formaram uma fila atrás de uma pequena grade de proteção e após duas horas de atraso, elas ganharam um aperto de mão, um sorriso falso e uma foto autografada do tão idealizado ídolo. Cintia não conseguia se conformar, não entendia para onde tinha ido o príncipe encantado que aparecia nos programas de TV e nos videoclipes.

    Sentada na calçada da rádio, a triste fã decepcionada ainda tentava encontrar uma explicação para o que acontecera. Talvez Leo Bernardes estivesse em um dia ruim, talvez não, o que ela sabia com certeza era que Júnior, que agora era seu ex-namorado,  nunca a trataria com indiferença, nem mesmo nos seus piores dias. Sabia também que seus pais nunca permitiriam que uma grade de proteção os separasse e que se pudessem lhe dariam muito mais que um aperto de mão.

    Na vida de Leo ela era apenas uma fã, que apesar se ser especial, era apenas mais uma na multidão, sem nenhuma individualidade. Porém, na vida daqueles que a amavam, ela era a Cintia, única e insubstituível. Enquanto olhava a foto daquele garoto que provavelmente nem se lembrava de que ela existia, Cintia pensou consigo mesmo que talvez tivesse dado um valor excessivo para alguém que estava a quilômetros de distância, quando quem realmente importava estava bem ali, ao seu lado.


    *Esse texto está participando da blogagem coletiva no Isso não é um diário da super talentosa Karine Rosa.
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    2 ♥

    1. Lindo texto,as vezes fico pensando nesse amor de fã,vejo meninas fazendo tdo para ver seus ídolos e quando vê eles nem são tudo aquilo que elas imagina.
      porqueestrelas.blogspot.com

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    2. Realmente, às vezes a gente idealiza demais os nossos ídolos...

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