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  • Epifania: A Arte de Ser Infeliz


    Olha, Maria, eu vim de muito longe para descobrir onde estou indo. Ainda não sei, confesso. É cedo. E só estou escrevendo isso agora porque acabo de notar que provavelmente nunca saberei. É tarde. Eu sei, a vida é mesmo sacana. Engana a gente, não é? Ontem mesmo achei que tinha encontrado o amor da minha vida, mas não é que o danado se perdeu de novo? É Maria, acho que morrer sozinha é mesmo triste, mas mais triste ainda é passar por essa vida com a boca cheia e o coração vazio. Eu não sou assim, sabe? Tudo é tão cheio por aqui que às vezes transborda. E alaga. Sabe como é ter um coração alagado, Maria?  Não? Então você não sabe como é ser eu. Nem queira. Coração cheio faz estragos por onde passa. Eu sei disso porque já deixei muita gente se reconstruindo para trás. Não pense que sou cruel, mas já não posso carregar mais nada. Estou cheia dos meus próprios destroços. 

    Dia desses senti saudade de mim mesma. Pois é, a que ponto cheguei. Privei-me de minha própria presença e me entristeci com o abandono. Mas procurei no fundo falso da gaveta e eu ainda estava lá, intacta. Desdobrei. Desamassei. E sabe que foi bom ver que já não doía tanto? Foi bom saber que ainda sou a mesma, mesmo que precise esconder isso na maior parte do tempo. Por que faço isso? Eu não sei Maria. Mas um dia descubro. Um dia passo a ser eu em tempo integral. Enquanto isso eu posso ser tantas outras. De todos e poucos. Sem nem mesmo saber.

    Ontem disseram que não me queriam tão longe. Estive em dúvida sobre o que isso quer dizer. É que não sou o tipo de pessoa que outras pessoas costumam querer por perto. Duvidei. Eu sei Maria, sou tão negativa quanto o inverno na Antártida. Mas não sou tão fria assim. Queria que soubessem disso. Você pode dizer a eles? Não quero ter que usar meu estoque limitado de palavras para dizer algo que está explícito. Ou será que apenas eu posso ver isso? É bem provável.

    Sabe Maria, acho que preciso trocar de roupa. Tenho vestido tristeza todos os dias. Logo vão pensar que só tenho isso. Eu sei, ser feliz não é difícil, mas não force a barra. Eu também vejo beleza na dor. Tudo o que tem beleza é arte, Maria, mesmo que nem todos possam ver.

    Hoje no banho me despi da tristeza por alguns minutos, e que saber? Senti falta. Doeu não ter o que doer. Acho que sofrer é mesmo viciante. Mas olha, Maria, isso não vai durar para sempre. Eu prometo. É só até descobrir para onde estou indo. E sabe, andei pensando e já me decidi: quero ser artista.


    Thaynara Valezi tem 20 anos e é paranaense. Gerencia mal o seu tempo e vê beleza onde não tem. Pensa demais, fala de menos e escreve para se livrar do excesso de pensamentos aleatórios e sentimentos que ocupam espaço. 



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    3 ♥

    1. Geeeeeente, que texto lindo! E muito legal sua iniciativa de compartilhar textos dos leitores. Bem capaz que eu mande um também *o*

      http://www.bilhetedagarrafa.com.br

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      1. Envia mesmo Daiany, vai ser ótimo ter um texto seu aqui! Vou aguardar seu e-mail <3

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    2. Vaaann! Eu enviei um texto para você! Amei esse texto e adorei a iniciativa! um xero! :)

      www.quase24horas.blogspot.com.br

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