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  • Epifania: A Charada


    “Você sabe qual a diferença entre não ser feliz e estar infeliz?”, perguntou Chapeleiro Maluco à Alice.

    Tudo bem, ele não perguntou. Mas poderia, porque diferente do corvo e da escrivaninha, essa charada tem resposta.

    Não ser feliz, é normal. Ninguém é cem por cento feliz, vinte quatro horas por dia e sete dias por semana. Nem mesmo o Papa, as Kardashians ou o pessoal das propagandas Colgate.

    E graças aos céus que não somos felizes de forma total e completa. Ninguém merece pessoas extremamente felizes segunda-feira de manhã estampando um riso na cara emitindo aquele “bom dia” agudo. Dispensem o falso moralismo do discurso ao respeito à alegria do próximo, apenas respeitem o luto de ter de acordar cedo e aceitem que esse momento é de discrição.

    Às vezes o trabalho é um saco, as pessoas são chatas, os sistemas só dão problema e o dia parece se arrastar. Muitas vezes a faculdade é um inferno, as matérias se confundem, ter de ser sociável cansa e até falar é um sacrifício. Quase sempre chegar em casa é um alívio, mas olhar a pia com louça, a casa desarrumada e roupas espalhadas só atrapalha a tentativa de paz.

    O barulho do vizinho, latidos da rua e o falatório dentro de casa em que todos usam o breve momento de estar juntos para por o papo em dia, ou se concentrar na novela. E tudo o que queremos é o silêncio, deitar no macio solo sagrado cheio de cobertas e travesseiros e desejar que a tecnologia consiga inventar algo que recarregue a energia humana como se fôssemos celulares.

    Por mais que nada defina essa rotina melhor do que “caos”, é necessário agradecer a toda essa balbúrdia. Se não fossem os problemas diários nós não teríamos a incessante vontade de melhorar sempre. Sair da chatice, reinventar a mesmice e sempre tentar mudar. É difícil demais (demais demais demais) praticar a arte de ver algo positivo num mar de negatividade.

    Mas assim como navegar, viver também é preciso. Necessário e essencial.

    Por mais que às vezes o choro transborde, o desespero aperte e a paciência se esgote, a gente precisa aprender a se virar.

    Ouvir uma música que te acalme ou te distraia quando o trabalho começar a pesar. Tentar rir de coisas bestas e arranjar nem que seja um amigo imaginário pra aguentar a barra que é estudar. Dar um beijo na família de casa mesmo que você entre e nem diga “olá”.

    É muito bom não ser feliz sempre. A humanidade precisa de uma pitada de mau humor. Enquanto houver alguém emburrado sempre haverá alguém pra fazê-lo rir, às vezes só pela diversão de atrapalhar a sua infelicidade.

    Afinal, quem é infeliz de verdade, tem os músculos faciais atrofiados e não sabem o que significa sorrir. Nem rir. Muito menos gargalhar. Nem que seja da desgraça alheia, ou melhor ainda, da própria.

    “Chapeleiro, você me acha louca?” perguntou Alice. “Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são… loucamente felizes.”


    Larissa Fernandes tem 19 anos e mora em Goiânia. Aficionada por playlists e músicas novas, apaixonada por português, chata com tudo e constante vítima do mau-humor, mas dona de uma risada estranha que muitos adoram, e de vícios incorrigíveis. Um deles é escrever.
    Para ler mais textos da Larissa, acesse seu blog, o SeteDoze.


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