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  • Mulheres na luta, Temer jamais!



    Nunca me explicaram com exatidão o significado do termo representatividade, mas ele sempre pareceu uma espécie de divindade que pairava sobre minha cabeça. Sabe, aprendi diversas coisas ao longo da vida. As aulas de português do colégio me ensinaram regras gramaticais, a engenharia me ensinou como resolver derivadas e integrais (sim, já fui das exatas) e os tutoriais do YouTube me ensinaram habilidades bem variadas como, cortar o cabelo sozinha em casa ou preparar um brigadeiro de churros delicioso. Mas a representatividade eu nunca aprendi o que era apesar de sentir que sabia exatamente o que ela significava. Como me disseram uma vez que quem sabe, mas não sabe explicar, não sabe de fato, resolvi pegar o dicionário para ver o que encontrava por lá.

    Li que representatividade é qualidade de representativo. Pesquisei o significado de representativo. Li que é o que representa ou serve para representar. Confesso que fiquei meio decepcionada, porque para mim a representatividade sempre foi algo muito além desse conceito. Uma ideia muito maior do que essa três palavras perdidas entre tantos outros verbetes nesse livro com centenas de páginas. Eu poderia ter gastado meu tempo e minha franquia de dados procurando outros significados nos mais variados dicionários online, mas achei inútil. A verdade é que eu nunca precisei saber o que significava representatividade. Não se assuste com essa frase, vou explicar melhor.

    Nunca fui uma criança de muitos amigos, então durante minha infância uma das minhas maiores diversões era ficar em casa brincando com minhas Barbies.  Em casa nós não tínhamos muito dinheiro para gastar com brinquedos, mas me lembro de que as poucas bonecas que eu possuía eram todas altas, magras, com cabelos longos loiros e olhos azuis. Quando ia ao shopping eu “namorava” aquelas vitrines com dezenas de Barbies, mas não era capaz de me encontrar em nenhuma delas. Eu não era nenhuma delas. Eu não sabia explicar o que era representatividade, mas sabia que não era certo que nenhuma daquelas bonecas fosse capaz de me representar nas minhas brincadeiras de criança.

    Durante a adolescência, fui uma leitora assídua da revista Capricho (talvez eu seja até hoje). Fazia todos os testes, lia cada uma das matérias e fazia questão de decorar meu horóscopo. Eu era uma adolescente gordinha, de cabelos cacheados que arrumava o quarto do irmão o mês inteiro em troca de uma revista a cada quinzena. Eu não sabia explicar o que era representatividade, mas sabia que não era certo eu ver looks montados com roupas que eu nunca conseguiria comprar. Não era certo que eu nunca aprendesse penteados que se adequassem aos meus cachos. Não era certo ver as leitoras da revista, garotas reais, serem representadas apenas por modelos de barriga chapada e cabelos impecáveis.

    Agora, como uma mulher adulta, confesso que não me informo sobre política tanto quando deveria, mas procuro ir me orientando sobre o assunto sempre que possível. Na semana passada pipocaram em minhas redes sociais notícias sobre a falta de mulheres entre os vinte e quatro componentes do governo provisório de Michel Temer. Li muitos textos sobre o assunto, vi opiniões de quem era contra, de quem era a favor, e assim fui moldando minha posição a respeito desse assunto. Eu ainda não sabia explicar o que era representatividade, mas sabia que num país onde as mulheres são a maioria da população e do eleitorado, não era certo que nenhuma representante deste grupo fizesse parte do ministério. Sabia que não era certo que tantas minorias fossem excluídas desse mesmo ministério. Sabia que não era certo acreditar que um conjunto composto inteiramente por homens cis, brancos, ricos, heterossexuais e de meia idade, é capaz de representar e lutar efetivamente pela população do nosso país.

    Ao contrário do que tentam contra argumentar muitos daqueles que não compreendem a importância da representatividade, a questão não é querer que se escolhessem ministros priorizando apenas o gênero e ignorando a competência que estes possam demonstrar ter ao ocupar cargos no gabinete de Temer. É inviável dizer que dentre os quadros dos vários partidos que hoje compõe o governo, não havia mulheres que fossem capazes de assumir algum destes cargos. Lutar pela presença de mulheres no primeiro escalão da República é lutar por representatividade, lutar para impedir um retrocesso, é resistência. Não é a primeira vez que mulheres são vítimas do sexismo e do machismo, e infelizmente não será a última. Mas não iremos no abater, usando as palavras do protesto que tomou conta de ruas e redes sociais digo: Somos mulheres em luta, Temer jamais!
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