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  • Eu decidi falar sobre você.




    Dia desses, em uma aula de literatura, li a história de uma moça que possuía um tear mágico. Ela tecia os dias, as noites... Teceu um peixe quando sentiu fome e um marido quando se sentiu sozinha. Era o bater dos pentes do tear que transformava seus desejos em realidade. A moça tecelã me fez lembrar de você. Me fez lembrar também de todas as vezes em que eu deixei a tela em branco porque sabia que qualquer coisa que eu escrevesse seria sobre você. De todas as folhas com meios parágrafos que eu amassava e jogava debaixo da cama só para não cair na tentação de continuar escrevendo. Porque quando nós gostamos muito de uma pessoa o amor insiste em sair pelos poros, escapar pela boca e derramar pelos dedos enquanto a gente digita ou escreve.

    Eu olhava a tela do computador e dava medo pensar que o bater dos botões do teclado poderia transformar o meu amor por você em realidade tal qual fez o tear com o homem que a tecelã idealizou. Eu fugia da possibilidade te amar do mesmo jeito que fujo para o meu quarto naqueles dias em que não quero encontrar ninguém e os parentes vêm me visitar. Eu te evitava da mesma maneira como evito cumprimentar pessoas conhecidas naqueles dias em que estou de mau humor. Fugir de você é um eterno encarar fixo a tela do celular para não ser obrigada a cruzar olhares com ninguém.

    Talvez, lá no início, eu devesse ter me libertado um pouco e deixado o que eu sinto ser algo real. Liberar esse sentimento para ser o que ele quisesse, sem se prender aos botões do teclado ou aos pentes de um tear imaginário. Eu poderia ter dito que odiava seu corte de cabelo e aquela sua calça jeans desbotada, mas que de você eu continuava gostando. Eu poderia ter dito que adorava quando eu estava com o cabelo preso e aquela blusa velha que só visto quando todas as minhas outras roupas estão sujas e mesmo assim você me chamava de linda. Não parecia correto, mas talvez as suas palavras fossem o tear que faziam a minha beleza se tornar realidade.

    Aprisionei as palavras sobre você durante tanto tempo que quando decidi soltá-las, elas não quiseram partir. Se agarraram ao chão, abraçaram as paredes, fizeram de tudo para não serem expulsas. Foi mais ou menos da mesma maneira que acontece quando vou a parques de diversão com montanhas-russas. Eu sinto tanto medo ao pensar nas mil e uma formas como aquilo pode dar errado que no fim acabo nem entrando no carrinho. Os brinquedos radicais estarão sempre ali, esperando a minha coragem chegar, mas a chance dessa nossa história se tornar algo real já passou, tão rápido quanto uma descida de montanha russa. E nem adianta querer correr atrás.

    Talvez essa nossa (quase) história só me fascine por ser como aqueles filmes que no final deixam no ar um mistério que nunca é resolvido. Talvez ela seja como o último episódio daquela série que nós amamos. Aquele final que é comentado até hoje porque a maioria das pessoas não gostou, porque tudo foi diferente daquilo que o público esperava. Todos odiaram, mas nós dois amamos e acho que essa é uma das poucas coisas que temos em comum. O que eu sei é que agora não preciso mais ter medo do bater dos pentes do meu tear ou do toque nos botões do teclado, porque mesmo que eu escreva dezenas de textos sobre você, nós nunca seremos realidade. E assim como o marido da tecelã e todas as suas riquezas, a única coisa que resta ao meu sentimento é se desfazer.
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